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PARAFILIAS - Alexandre Marques Rodrigues

Atualizado: 31 de Jul de 2018


Fonte:Google Dicionário


DESNUDANDO O LIVRO: PARAFILIAS - Alexandre Marques Rodrigues


QUANDO eu era criança, ouvia os adultos falar sobre as peças de Nelson Rodrigues sempre ressaltando a perplexidade do público para com seus retratos obscenos e vulgares da vida moderna. Anos depois eu li algumas coisas e não achei nada demais.

Já perto de lançar o meu primeiro livro, alguém me disse que eu deveria procurar outras referências de contistas e cronistas fora do triangulo amoroso já manjado, entre mim Fernando Sabino e Rubem Braga, isso quando não estamos fazendo uma suruba com a Clarisse Lispector no meio, fui obrigada a concordar e aceitei a indicação para me aprofundar na obra de Rubem Fonseca, na esperança de que não estivesse saindo muito de minha zona de conforto inspiracional, mas estava.


O Rubem Fonseca, na minha opinião, é um fascista camuflado de neopensador da arte noir. Dito isso, é difícil de acreditar que após eu ter lido uma crítica na Folha de são Paulo que destacava influência desse escritor na linguagem de Alexandre Marques Rodrigues, autor de Parafilias, eu ainda tenha comprado seu livro, levando em consideração a rigorosa bancada que concedeu o premio SESC de literatura de 2014 a esta obra.

Comprei quatro livros na ocasião e esperei pacientemente pela entrega, os outros três chegaram rápido, mas justo o que eu estava mais ansiosa por aguardar, o volume de capa rosa avermelhada que ligeiramente me remetia a um orgasmo menstruado, ainda demorou uma semana extra para aparecer na portaria do prédio.

Quando o livro chegou, fiquei triste ao notar que haveriam apenas 160 páginas para nos apresentar, teria que ser uma relação rápida e intensa, dessas de Carnaval, quando viu, já foi.


Tenho um amigo cronista em São Paulo, com dois livros publicados, nos quais ele relata suas desventuras sexuais de um modo explícito e bem humorado, mas que por vezes perde o tom de elegância nas palavras e deixa transparecer seu interior obscuro e machista. Fica difícil não julgá-lo em diversos momentos, mas se ele tivesse tido a sacada de transformar suas crônicas em contos, e salpicado algumas características lúdicas, hoje percebo, ele teria se saído com maestria, tal como foi o resultado do livro a que venho criticar hoje, uma obra prima.

Insuperável em sua ardilosidade, Alexandre Marques Rodrigues transporta o leitor por entre as lacunas sórdidas dos desejos e curiosidades da natureza instintiva sexual humana de uma maneira tão impessoal e analítica que a gente fica na dúvida se ele é de fato um pervertido ou apenas o mais exímio observador da vida alheia que já existiu. Possivelmente, os dois. Totalmente desprovido de pudores (pudor, o que é isso?), convenções sociais, estereótipos ou leituras superficiais, Alexandre defende a crueza dos impulsos instintivos, sendo sutil ao descrever as mais variadas formas de expressões físicas e emocionais que são guiadas pela necessidade de satisfação da psique, dentre elas: infidelidade, submissão, promiscuidade, fetiche, carência, diligência infantil (sim, as crianças não escapam), necrofilia, inveja, vício, autoflagelação, instinto assassino, mentiras e et cætera.

Ah, esse “et cætera”, escrito com a ligação anglo-saxônica primitiva das letras A e E, parece proposital, em muitos momentos dando a impressão delas estarem transando dentro da palavra, é um sentimento que o autor transmite para dentro das nossas mentes fazendo-nos enxergar sexo em praticamente tudo, totalmente empírico.


Percebe-se em suas palavras o pensamento inquieto e remoído de quem passou tempo demais na companhia dos contistas Russos (nomes que ele faz questão de mencionar), mas ainda assim consegue ser pueril em suas avaliações, algo que não podia deixar de ser, quando se trata de sexualidade, vindo de um autor do sexo masculino, né...

A Efedrina é um dos componentes mais recorrentes dentre a caracterização de seus personagens, um excesso que resulta em questionamentos paralelos sobre o autor que vou deixar para uma próxima crítica, mas o que todas aquelas pessoas tem comum entre sim, com o autor e o leitor, é jeito dissimulado de tratar de alguns assuntos, pois no fundo, ninguém gosta de admitir certas intimidades e encarar o lado real, condenável e violador dos nossos desejos íntimos mais decadentes.



Fiquei me perguntando qual seria o tipo de público alvo para um livro com tais temáticas, se seriam os mais jovens, absortos na liquidez das relações humanas modernas, ou os mais maduros que ressentem as aventuras não vividas e vontades não saciadas da mocidade, seria ainda um livro propício a uma plateia muito mais jovem e inexperiente, no papel de uma cartilha que adverte para o que a vida sexual lhes resguardará no futuro? Um verdadeiro salve-se quem puder, pois quem depende da ética para julgar a densidade filosófica de um livro, se surpreenderá ao descobrir que os valores morais são a última preocupação do autor, enaltecendo o antiético com tal veemência que até os mais pudicos tendem a se identificar com os personagens de uma maneira controversa. É tipo uma bruxaria.


Existe sim um público que realmente não vai se identificar com essa obra e a considerará de um tom doentio, ressentido e até abstrato, são eles os assexuados. Se é que eles existem, pois toda psique busca alguma forma de alívio e satisfação, sendo ou não explicitamente sexual. Acho que essa foi a única parafilia não abordada no livro, um tipo de sexo-sem-sexo, realmente não apareceu, mas teve masturbação, sexo a dois, a três, suruba, inversão, drogas e morte. Dificilmente um livro será mais abrangente e atrativo do que isso, os assexuados que me perdoem, mas esse livro é universal. O autor ainda foi fortuito em incluir as relações homossexuais de uma maneira tão fluida que em alguns momentos não percebemos a menor diferença entre os pensamentos de um hétero ou um gay, mostrando que na essência somos todos iguais, é realmente encantador.


Eu li diversas críticas desse livro, tantas que nem consigo lembrar onde foi que o descobri pela primeira vez. Muitos leitores, inclusive Ronaldo Bressani que assina a sinopse, destacam a solidão como sendo uma das temáticas do livro. Creio eu que as pessoas tendem a confundir solidão com independência, mas o autor é perspicaz e por mais melancólica que seja a natureza de um ou outro personagem, o recurso empático do leitor é o que definirá até que ponto essa suposta solidão é uma escolha ou uma consequência desses personagens, uma conclusão que pode ser surpreendente. No meu caso, essa conclusão está escrita aqui em forma de palavras negritas, em ordem, representando cada um dos 24 contos desse livro, são muitas palavras, solidão, não é uma delas.

É difícil de desvencilhar desse livro, eu passei quatro dias mastigando lentamente cada conto, permitindo-me a confusão mental e os ensejos provenientes da leitura, ou seja, muita masturbação excitação. Mas essa leitura também gera um sentimento nefasto como se estivéssemos apoiando uma coisa errada, o autor passa a ser um intruso nos nossos desejos, e eu sei o quanto isso é estúpido, mas acima de tudo é passional! O talento desse autor é invejável, e seu ponto de vista simplório em algumas situações totalmente estapafúrdias tem um resultado hilário e inteligente, dando até nova conotação à expressão “Puta Merda”.


No fim do dia, para um bom observador, ninguém é solitário de verdade, as parafilias são nossa maior companhia, e o livro Parafilias, é agora, uma das minhas.





VOLUME LIDO: PARAFILIAS

AUTOR: ALEXANDRE MARQUES RODRIGUES

1ª EDIÇÃO: 2014

EDITORA: RECORD

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