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TARTARUGAS ATÉ LÁ EMBAIXO - John Green

Atualizado: 31 de Jul de 2018

DESNUDANDO O LIVRO:



Costumo dizer que quando certos escritores ficam famosos, contraem uma doença passageira (ou não) cujo principal sintoma é uma explosão de arrogância que os fazem acreditar que qualquer trabalho produzido por eles é uma obra prima.

Uma vez abraçado pela editora, o autor ganha todo um aparato logístico, que são as curiosas formiguinhas capitalistas da editora que precisa lançar mais livros e lucrar mais dinheiro, fazendo com que sua rotina de pesquisas e referências se torne um trabalho quase totalmente delegado, dando lhe mais tempo e flexibilidade para focar no que importa: a produção.

A mim parece um péssima estratégia, pois matematicamente falando, uma obra cujo escritor gastou 80% do seu tempo pesquisando em 20% escrevendo, nunca irá se comparar a uma obra na qual 50% dessas pesquisas tenham vindo mastigadas, organizadas e etiquetadas. A qualidade da sua produção sofrerá danos pelo impacto da pesquisa terceirizada e isso é um fenômeno facilmente observado nas obras recentes de diversos escritores dentre eles Marian Keyes, Dan Brown, Nicholas Sparks e Paulo Coelho, autores contemporâneos que obviamente favorecem-se demasiadamente desse recurso oferecido pelas editoras e transparecem a carência de envolvimento no processo de pesquisa. Ao passo que outros autores que também têm uma vasta obra e não se permitem serem “mimados” pelas editoras, mantém estável a qualidade de suas obras mesmo já tendo ganhado o nome no mercado e cito como exemplo Anne Rice, Sidney Sheldon e Neil Gaiman.

Essa notável perda de consciência artística / ganho de presunção é comumente conhecida como verborragia, a qual eu prefiro chamar de regurgitação ou vômito de livros, no qual o ator sai publicando obras desenfreadamente sem se dar conta de que talvez uma delas possa ser uma porcaria.


Dito isso, deixo aqui o meu sinal de alerta ligado e direcionado ao querido John Green: Que se cuide muito e vigie seus passos para não cair nesta almofadada armadilha.

Ao final de seu último lançamento, Tartarugas até lá Embaixo, o autor inclui duas páginas e meia de agradecimentos nas quais ele cita o extensivo trabalho de edição por seis anos nesta obra que contou com inúmeras versões antes de ser finalizada com uma longa lista de colaboradores.

Longe de mim querer insinuar que Tartarugas até lá Embaixo seja uma obra realmente ruim, ou vazia, o que não é, mas é perceptível a ausência de confiança do autor em suas palavras. Eu que já li outros dois livros dele, não pude deixar de notar que faltou sua personalidade; depois de ler os tais agradecimentos pude perceber que toda aquela ajuda recebida por ele talvez tenha sido um tiro que saiu pela culatra.

Segundo o autor, Tartarugas até lá Embaixo é o livro mais pessoal de John Green até então. Já acostumado a retratar a busca pelo autoconhecimento e a dinâmica de relacionamentos com excessivo sentimentalismo e puerilidade, ele se desafiou ao trazer um tema pouco explorado na literatura contemporânea, a doença mental. Sendo ele mesmo uma pessoa diagnosticada com o TOC (transtorno obsessivo compulsivo), a obra em si ganha um cunho autobiográfico e totalmente visceral. Onde o leitor se vê mergulhado nas aflições de uma protagonista fragilizada e quase alienada em consequência da doença que autor também sofre na vida real.


Com acento privilegiado dentro para o show mente de uma pessoa obsessiva que se chama Aza, o leitor que nunca apresentou sintomas obsessivos ou ansiedade irá se deparar com um pensamento linear totalmente diferente do de uma pessoa considerada “saudável” e pode se chocar ou achar exagerado o modo como o autor apresenta as reações da personagem que se vê perdida em pensamentos obsessivos num ponto onde ela já não reconhece seu próprio eu e acredita ser guiada por fatores externos sem se dar conta de que tem a rédeas da vida ao seu alcance.

Agora, quem já lidou ou lida com algum desses problemas em qualquer nível irá se identificar de cara com a enchente de sentimentos que transbordam da protagonista de tal forma que chega a ser asfixiante e excruciante, sendo necessário deixar o volume de lado em alguns momentos para tomar fôlego e continuar.

Eu contei um mínimo de seis vezes em que pensei em simplesmente gritar por que eu mesma já não aguentava mais viver dentro da mente de Aza em conjunto com a minha. Só consigo imaginar o quão difícil tenha sido para John Green colocar em palavras algo que ele somente conseguiu classificar como uma infinita espiral (ou redemoinho) de pensamentos independentes que simplesmente não tem fim, que consome e corrói quem as carrega. Nesse aspecto o livro é profundo e genial fazendo jus ao talento do autor e agregando grande valor ao conjunto de sua obra.


Infelizmente não posso deixar de pontuar que mais uma vez a protagonista é uma adolescente de classe média que mora em Indianápolis e tem uma mãe superprotetora e traumatizada... (pausa para revirar os olhos.). Outro ponto repetitivo é lugubridade que flutua no enredo e que seria facilmente dispensável, havendo outras maneiras de apresentar o tema. A morbidez da história não chega a ser excessiva, mas é redundante e poderia ser substituída por outras abordagens que dariam um ritmo mais envolvente à trama sem deformar a profundidade do tema principal: a doença de Aza.

Eu entendo que John Green ainda esteja navegando na rebarba do seu best-seller anterior, tanto que a referência de A culpa é das Estrelas é estampada na nova capa sem nenhum pudor, algo que interpretei como ponto negativo visto que além das características mencionadas no parágrafo anterior e dos diálogos românticos via mensagem de celular, as duas obras não se relacionam em nenhum outro aspecto.


O leitor que procurar Tartarugas até lá embaixo por causa do livro anterior irá se decepcionar em vários níveis, principalmente no que se trata dos personagens secundários.

O elenco de apoio não tem o mesmo destaque, as relações são frágeis, um pouco superficiais e todo o foco da história é direcionado para o modo como a protagonista enxerga o mundo, rendendo a frase: “É muito raro encontrar alguém que veja o mesmo mundo que o seu.”, impressa na contracapa.

Na história, Aza é convencida pela melhor amiga a juntas investigarem as pistas do desaparecimento de um bilionário da região em troca de uma farta recompensa. A amiga, Daisy, é uma adolescente espevitada e impulsiva que serve para antagonizar a protagonista conflitosa e autocentrada que batalha para tentar interagir e participar das situações enquanto é engolida pelos sintomas de sua doença, e tenta compreender seu lugar no universo ao mesmo tempo acaba sendo surpreendida por um amor inesperado.

O que ficou mesmo no ar é o gênero do livro, que apesar de envolver uma investigação criminal não chega a ser um suspense, e apensar de envolver uma relação amorosa central, não me parece exatamente um romance. Esta definição ficará a cargo do leitor. Eu apenas o classifiquei como ficção.


Tartarugas até lá embaixo teve lançamento mundial, aqui no Brasil pela Editora Intrínseca. A curiosidade do título só é revelada quase no final das 266 páginas abraçadas por uma capa atraente e moderna que assim como o título só será compreendida uma vez iniciada a leitura que atrai o tanto publico adolescente quanto o adulto assim como as demais obras de John Green, que em sua quinta obra de autoria solo já começa a dar sinais de que vem vômito por aí, mas que por enquanto se mantém consistente. Só nos resta ficar de olho.




VOLUME LIDO: TARTARUGAS ATÉ LÁ EMBAIXO

AUTOR: JOHN GREEN

1ª EDIÇÃO: OUTUBRO 2017

EDITORA: INTRÍNSECA

TRADUÇÃO: ANA RODRIGUES





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