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Crônicas Modernas - A alegria da menstruação

A cura é um processo, o desapego é um processo, e tudo isso envolve emoções fortíssimas que afetam, além do psicológico, o físico também!


O noivado acabou, mesmo que tenha durado apenas vinte dias. Sim, ele me pediu em casamento, sim, eu aceitei, sim, ele um dia acordou, olhou pra minha cara decidiu que não me amava mais e que estava pronto pra me largar e foi embora de Salvador. E não, não tem uma maneira melhor de explicar isso. Até porque todos os eventos que se sucederam aquele momento me vêm como memórias nebulosas de uma versão liquefata da minha pessoa transitando pelas ruas do bairro da Ribeira embaixo do sol...


Pois bem, menstruei. Uma semana, parou, mais uma semana, parou, mais uma semana, parou, e chorei durante todo o tempo. Ou seja, durante o mês de Outubro (que contemplou meu aniversário), eu me desfiz em sangue, suor e lágrimas, enquanto meu amado retomava sua animadíssima vida de solteiro experimentando novos sabores em viagens, depois de quase três anos me jurando amor eterno, família eterna e amizade eterna. Era mentira, mas tudo bem. Nada é eterno, não é mesmo?


Num dado momento consegui me secar, mas só debaixo do sol da minha cidade, quando cheguei numa versão do Rio de Janeiro que era ainda mais caótica do que o meu interior abalado. Entendi que não havia mais espaço para lágrimas, e passei a sentir um misto e raiva com saudade; saudade da raiva que ele me causava e raiva da saudade que ele me causava e tudo o resto que podia haver no meio disso.


Novembro não menstruei, afinal, devia haver pouco ou nenhum liquido restando dentro do meu corpo. Sequei, né? Acontece.


Dezembro, a última menstruação do ano, com todas as blogueiras comemorando 12/12 e eu comemorando o fato de conseguir levantar da cama pela manhã e só. Onde estava meu ciclo? Teria ficado em salvador? Vai saber. E aí começou uma nova série de sentimentos até então desconhecidos por mim.


O medo de estar grávida de alguém que não me amava, e que talvez nunca tenha me amado. É isso. No fim o que ele chamava de amor, nada mais era do que um mínimo de responsabilidade afetiva e olhe lá. Amor é outra coisa. Quem ama não perde tempo sentindo medo do simples ato de sentir algo por alguém imperfeito, não fica tentando consertar o que não está quebrado. Ele tinha vergonha de mim, das verdades que eu não tenho medo de falar, e em contrapartida eu passava meu tempo todo tentando agradar de outras maneiras, mas sem deixar de ser eu. No fim, ele queria que eu mudasse, mas no começo ele dizia que eu era perfeita...


Imagina estar grávida, meu deus. No meio de uma pandemia, no meio de um mundo caótico sem cura, sem amor, sem esperança, sem vacina... Aquele homem ia ser que tipo de pai? Tudo que eu lutei na minha vida para não me tornar um clichê e agora ia ser mãe solteira de uma criança de um pai amedrontado que não sabe lidar com nada? Cêjura? E passei a chorar de novo, dessa vez de pânico, de arrependimento, de escolher um homem que não tinha colhões para estar ao meu lado, mas tinha esperma para me engravidar. Ô ódio!


Volta a fita, eu tomava anticoncepcional, mas parei em setembro. Ou seja, tinha um fator hormonal ali no meio, mas mesmo assim, nada estava batendo, nem uma cólica... Das duas uma, ou estava grávida ou podia ser câncer. Pois na arvore da minha família, se você sacode qualquer galho e cai uma pessoa cancerosa. Já foi normalizado.


Janeiro, e nada de menstruação. Cheguei à conclusão de que talvez fosse uma espécie de gravidez psicológica e confessei para mim, talvez essa seja a última coisa que me liga ao meu ex.

O último fio invisível do meu corpo preso ao dele. Talvez seja um mecanismo de defesa de um sistema que entrou em choque por quase três anos ao ser rejeitado inúmeras vezes e aquela era a última das rejeições....


Finalmente fiz um teste de gravidez, daqueles de mijar no pauzinho. Comprei um caro, deu negativo, acreditei. É, pelo visto acabou mesmo, e se partiu aquele fio imaginário.

Agora podia ser câncer ou loucura e, na dúvida, resolvi me medicar. Um sangrador, como diria minha avó. Uma dose cavalar de hormônios que exorcizam até o que não tem lá dentro.

Fevereiro chegou, crises de ansiedade também... Uma segunda-feira pavorosa, seguida de uma terça-feira horrível e uma quarta-feira que parecia querer arrancar o pior de mim, mas na quinta-feira, bem quando eu estava prestes a arrancar os meus cabelos, ela chegou, e então pela primeira vez na minha vida eu chorei de alegria da menstruação.




Fim.










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