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CRÔNICAS MODERNAS: ANEDOTAS PT.2

Atualizado: 6 de Set de 2018

Clique aqui para ler a parte 1.



O FISCAL DO SUTIÃ.


Quanto simbolismo pode existir em uma única peça de vestuário?


Meu pai me interrompeu na porta dizendo que a blusa que eu vestia estava transparente e indecente, pediu que eu colocasse um sutiã. Respondi que eu não tinha e foi assim às dez da noite nos vimos perdidos entre as fileiras do Walmart à procura do que seria o meu primeiro sutiã.

Minha tia me ensinou que era para manter os peitos no lugar – Já viu os peitos caídos das índias? É porque elas não usam sutiã, dizia. E reforçava enfatizando a importância dele para a coluna – sua prima não gosta de sutiã e está ficando corcunda! – Nunca retruquei.

Só passei a desconfiar do aprendi no dia em que a Angelina Jolie me seduziu interpretando a mocinha selvagem em Sob o luar do deserto. Não me lembro da historia do filme, mas jamais me esqueci da camisetinha azul cujo pano maleável delineava o formato dos seios que deixavam clara a ausência do sutiã enquanto eles balançavam suavemente durante seu caminhar. Aquilo foi uma das coisas mais sensuais que eu vi em toda a minha vida e curiosamente é a primeira lembrança que tenho de excitação.


As feministas queimavam os sutiãs, me disseram, desdenhei. No carnaval as moças saem peladas na avenida, dei de ombros. Em Saint Tropez se faz topless, nunca liguei. Em matéria de peitos livres ou era Angelina ou ninguém. E eu que era ninguém, nunca me senti confiante o suficiente para simplesmente sair de casa sem aquela leve pressão torácica que me lembrava da minha condição de mulher, peituda e vitima do capitalismo e da moda.


Com uma família retrograda e poucas amigas mulheres, meus questionamentos sobre sutiã tiveram que ficar para um amanhã que nunca chegou e segui meus dias vestindo os seios no colete à prova de liberdade até que numa fatídica tarde de outono, com quase 28 anos de idade anunciei para minha amiga Amália que naquele dia eu iria sair pela primeira vez sem sutiã. Ela riu e disse que fazia isso sempre, no que eu retruquei – também pudera, se eu carregasse bolas de ping-pong ao invés de melancias tampouco me daria o trabalho. –

Coloquei uma camiseta e uma bermuda, me senti gente, que nem homem, livre. Será que eles se sentem assim todos os dias, pensei. Consertei minha postura e desbravei as ruas do Rio de Janeiro com os seios cobertos apenas pelo pano estampado com caveiras. Obriguei-me a manter a coluna ereta o tempo todo enquanto pensava nas índias da minha tia, e toda vez que alguém me olhava mais que o normal eu me perguntava se aquela camiseta estaria transparente, o que me fazia suar descomunalmente e em pouco tempo a blusa estava ensopada do suor que não encontrou um sitia para contê-lo, elevando ainda mais a minha ansiedade já astronômica. Cheguei em casa arrasada e melequenta como se estivesse voltando da guerra meu só tinha ido comprar um maço de cigarro.

Contei pra minha melhor amiga – Amália, eu sempre tive medo de sair sem sutiã, pra mim isso é algo que não se faz, errado mesmo, como se ao sair de casa tivesse algum fiscal de blusa azul e maquininha em mãos pronto para me multar. Cinco pontos na carteira por sair sem sutiã, senhora, e mais três pela blusa semi-transparente, multa de quinhentos reais. – No que a minha amiga bahiana respondeu – Se for assim já eu tô com nome sujo e mandato de prisão, amiga, essa semana eu tô sem uma calcinha pra usar!


CONTINUA...


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