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CRÔNICAS MODERNAS: ESTATÍSTICA DESAFIADORA

Atualizado: 6 de Set de 2018


A experiência tragicômica de uma cidadã no site do IBGE.

Fonte: https://pt.vecteezy.com/

Fui aprovada como redatora de um site que até agora não sei ao certo como se pronuncia o nome. Toda animada, comecei a escrever meu primeiro artigo ciente de que estaria sendo remunerada por cliques e que teria que escolher assuntos que já estão na mídia e nos trending topings para poder receber uma mixaria em troca.

A aprovação veio às nove da noite e comecei meu primeiro artigo antes das dez. Dei sorte que uma série nova tinha lançado na internet e ataquei de cinéfila traduzindo uma entrevista com a atriz da trama. Não satisfeita ainda tive a cara de pau de fazer uma rápida publicação sobre uma socialite carioca, afinal eu precisaria de muitos cliques para poder pagar aquele rodízio de comida japonesa que estava desejando a semanas...


No dia seguinte, a surpresa, os dois artigos bobos obtiveram muito mais cliques do que o esperado e eu já tinha mais de dez reais acumulados. O que era muito pra quem tinha usado o último rolo papel higiênico dois dias antes, e estava fazendo uso paninhos para se secar do xixi.

Nossa, seria eu capaz de viver disso? Pensei. E logo um clima de euforia tomaria conta pessoa que inadvertidamente passou a se considerar além de escritora, uma jornalista e sorria como se tivesse ganhado o Pulitzer.

Em seguida, a crise de ética. O artigo sobre a socialite havia gerado o triplo de cliques que o artigo sobre a série nova e senti que em breve estaria criando manchetes sensacionalistas e vendendo minha alma em troca de peixe cru.

Será que a vida de jornalista é isso? Tentei me não me desestabilizar, a estava feliz demais com minha mais nova empreitada para isso. E tratei de procurar outro assunto que desse uma boa matéria.


Encontrei meu tema num jornal grande. O título da manchete me deixava irritada, o conteúdo escasso e antiquado mais ainda. Vou arrasar com esse tema vai ser agora, pensei. Mexeu com a educação brasileira, mexeu comigo. Coitada, insana.

Subi no meu palanque emocional e comecei por falar mal das prioridades do povo, e resolvi atacar as estatísticas.

Lá fui eu inocentemente acessar pela primeira vez o site do IBGE.

Parecia simples: pesquisar na lista de assuntos, clicar no que eu queria e ser feliz.

Não era: para acessar os dados de levantamento do censo e das pesquisas nacionais desde dois mil e dois é necessário fazer o download de uma pasta que contém diversos arquivos totalmente sem descrição, nomenclatura ou indicação do que se tratam. Sendo necessário abrir todos os arquivos da pasta até encontrar a estatística desejada. Isso se a pessoa der sorte de encontrar o assunto na pesquisa do site. Os títulos dos temas das pesquisas não fazem muito sentido e até dificultam a compreensão do que a pessoa está procurando.


Quase uma hora depois voltei para meu artigo e é fonte pra cá, foto pra lá. Ajeita, corrige, acerta, corta e cola. Enfim três horas depois do início do processo, mina obra de arte estava terminada. Publiquei no mural e aguardei a revisão. Sugeri que fosse colocada na parte de notícias do Brasil, mas pelo visto eles queriam outra abordagem insólita, machista e ultrapassada. Desculpa, não passarão. Reduziram meu texto à seção de opiniões e me senti ofendida, mas dois reais depois tudo estaria resolvido. Segundo as estatísticas, de grão em grão a galinha enche o papo.




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