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 PARA +16 ANOS  

Crônicas Modernas - FERNANDO E EU


Eu tinha quinze anos quando a gente se conheceu, do nosso jeito, né...

Foi um presente da escola na formatura da oitava série e a maioria dos meus colegas de classe, que também o ganharam, não deram muita importância. Eu dei. Eu sabia que dali para frente, durante as férias, eu não teria tanto acesso a livros, e em casa só havia alguns suspenses policiais que minha mãe costumava ler.

Mal sabia eu, que aquele seria o presente mais importante que eu ganharia na vida.


Ler seu primeiro livro foi como engolir uma parte minha que eu não sabia que faltava, como um órgão que nascera fora do meu corpo, e agora estava em seu devido lugar. Depois que eu o conheci, eu estive completa. Não à toa e nem por coincidência o livro se chamava, O ENCONTRO MARCADO, estávamos destinados a nos encontrar...


Foi doloroso descobrir que ele já estava morto e que eu teria que me contentar apenas com as partes de si que ele deixou para trás. Cada livro, cada conto, cada crônica me mostrava um pouco mais sobre ele e não tive como controlar, eu me apaixonei...


Assim como eu, o Fernando também acordava de mau humor, o Fernando também bebia café, o Fernando também gostava de ouvir conversas alheias em locais públicos e depois comentar sobre isso em uma mesa de bar. Éramos duas metades de uma laranja que o universo separou ironicamente.


Até os amigos dele eram maravilhosos, o Rubem, a Clarisse, o Hélio, Otto Lara... Nossa, o Fernando tinha os melhores amigos que alguém poderia ter e eu me sentia íntima de todos eles. Um monte de artistas, e só conseguia me imaginar sentada no meio deles num bar em Copacabana proseando e fumando cigarros e tragando cachaças, como uma versão reinventada da Pagu.


Ahhh Fernando, porquê você tinha que morrer tão jovem? Mal completou oitenta anos! Ahhh Deus, porque eu não nasci antes? E sofria de amor.


Pouco me importava que sua viúva estava viva e que se ele estivesse vivo estariam casados. Eu também tinha um namorado na época, rapaz de mente aberta e tudo, mas que num dado momento já não aguentava mais ouvir falar do tal Fernando e começou a dar crises de ciúmes. Pouco me lixei, eu estava vibrando numa outra frequência, a da paixão.


Tudo que eu lia dele parecia ter sido escrito para mim, para eu dar risadas, para me consolar, para me mostrar que eu realmente era diferente, mas que havia gente como eu no mundo, o Fernando! E mesmo morto, ele passou a ser meu melhor amigo. Ele lidava com os meus problemas e eu com os do passado dele.

Ninguém entendia, mas eu estava apaixonada, obcecada e não conseguia falar de outra coisa. Ciente de que não havia como conversar com ele sem a interferência de um médium muito qualificado, não tive outra escolha senão escrever de volta.


Comecei reclamando de algo como o Fernando reclamaria, com tons de ironia e perspicácia, expondo sua chatice metódica de forma cômica. Minha primeira crônica, escrita nas últimas páginas de um caderno da escola se chamou “A GELADEIRA” e falava sobre o barulho de uma geladeira velha que morava lá em casa. Me emocionei. A GELADEIRA foi a primeira de muitas conversas que tive com o Fernando. E quanto mais eu o respondia mais eu o desejava, e mais eu tinha certeza que estávamos conectados.


De sebo em sebo eu procurava uma capa dele que minha mesada de estudante pudesse comprar. E achava! Um, dois, dez, quando dei por mim, tinha uma estante inteira dedicada ao homem que fazia meu coração bater mais forte, FERNANDO TAVARES SABINO.

Comprei uma máquina de escrever, e nela batuquei infinitas crônicas conversando com ele, anos depois eu fazia o mesmo, só que no computador. O tempo foi passando e hoje já cheguei no meu terceiro livro, graças à esse amor.


Foi você que me fez chegar onde estou, foi você que me fez descobrir que sou escritora, foi você que nunca me deixou duvidar que um dia seria lida, foi você que me ensinou o que amar e o que odiar em um homem, foi você que me deu as repostas das perguntas que eu tinha medo de fazer quando eu era adolescente; e hoje em dia questiono muito mais, pois foi você que me fez perder o medo das respostas.

Foi você, um libriano de casca grossa e coração mole. Meio chato, meio machista como todo cara que nasceu nos anos vinte, mas por alguma razão eu também era, e olha que nasci no final dos anos oitenta, mas só fui começar a me descontruir em 2010 depois de conhecer uma outra pessoa por quem também me apaixonei, a Lady Gaga, mas essa é uma história para outra hora, não fica com ciúme não, Fernando, eu sempre vou te amar...



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