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Crônicas Modernas: Heróis do dia a dia - 2 - A JUSTICEIRA DAS RUAS


A história de uma jovem heroína desconhecida da Tijuca.





(Essa crônica vem com trilha sonora, para quem curte ouvir um som enquanto lê, antes e/ou depois. Aperte o play e boa leitura!)









...Quando deu por si, estava aos berros, em frente à Rua das Flores, apontando o dedo e exclamando: RACISTA! ESSA MULHER É UMA RACISTA NOJENTA!...


Ela não sabia como isso havia acontecido, mas aquela terça-feira já estava tirando sarro da sua cara desde que havia acordado, de mais uma noite mal dormida, pensando no rato que agora residia no motor de sua geladeira.

Tentou ignorar isso, observando pela janela o belo dia que amanhecia, e colocou uma roupa leve, seus fones de ouvido e marchou rumo ao salário do mês de julho.


Às onze da manhã caiu uma tempestade temerosa, enquanto ela voltava para casa, após ser demitida. Mais uma empresa indo à falência no Rio de Janeiro. Chegaria em casa ensopada e congelada, mas não sem antes receber a dolorosa notícia de que a Ana, sua melhor amiga, estava prestes a ir embora da cidade. Aquela terça-feira, de fato, não ia nada bem.


No lugar onde estava trabalhando, o chefe tinha mania de televisão ligada. Ele assistia avidamente aos noticiários, enquanto ela praticava a arte da meditação consciente, e tentava sorrir, no era submetida àquela tortura insana. Eram horas seguidas de notícias trágicas e escândalos políticos com ênfase na crise econômica, violência, guerras e desespero. Mas não era preciso ligar a televisão para saber que a coisa não ia nada bem, o pânico já havia se instalado na maioria dos olhares.

A quantidade de pessoas desempregadas entre os conhecidos era alarmante, e jamais havia-se visto tantos camelôs nas calçadas da cidade, nem tanta gente dormindo sob as marquises.


O medo constante de ser assaltado passara a ser quase uma certeza, e por onde se andava, havia pessoas pedindo dinheiro. Em qualquer bairro.

Quem tinha emprego rezava para não sair. Quem não tinha, tentava contar com a ajuda do governo, mas infelizmente só lhes restava a ajuda de Deus.


As portas das igrejas viviam lotadas de gente pedindo esmola, comida, roupas, empregos e o direito de viver. Os cristãos também estavam pobres, todo mundo estava pobre. O Brasil estava de novo no mapa da fome da ONU.

Aquele homem sentado em frente à televisão, ao lado da recepção vazia, alimentando sua alma com o terror da mídia, ficava cada dia mais cabisbaixo.

Ela sabia que poderia ser demitida, afinal não havia clientes, mas ele permanecia olhando sempre para a tevê, como se estivesse esperando alguma notícia diferente, uma salvação, ou um rompante de esperança. Ingênuo. O tipo de brasileiro que tem fé, e acredita em tudo, hipnotizado e sempre olhando para frente, geralmente para uma tela brilhosa, usando antolhos invisíveis. Existem muitos assim. Raramente alguém consegue olhar para os lados. A situação é pior quando a gente passa a observar com atenção.


Quando olhava para a tevê, ela se sentia como se estivesse assistindo o país cair em miséria perante seus olhos e nada pudesse fazer pelos seus conterrâneos. Ínfima, impotente, invisível. Mas quanto tinha uma moeda sobrando, ela dava. Quando tinha tempo, sentava e conversa com algum morador de rua. Dividia uma bebida no bar. Cedia um cigarro, dois...jamais negou a ninguém. Sorria para todos que lhe olhavam. Às vezes, alguém só precisa de um sorriso para que seu dia se transforme. Ela já havia passado fome na vida, e corria o risco de passar de novo. Mesmo sendo branca e tendo concluído o ensino médio e iniciado a faculdade. Ela era apenas mais uma na multidão. A caminhada na chuva serviu para lhe lembrar disso. Ao menos ela tinha onde se secar e um lugar quente para dormir naquela noite, coisas que tantos outros, ali na mesma rua em que ela morava, num barro movimentado da zona norte, não tinham. Em quase todas as quadras havia alguém dormindo no chão. Era costumeiro ser abordado por pedintes o tempo todo. Ainda mais na chuva.



E foi então que aconteceu, em frente a uma vitrine. Entre as memórias ressentidas do chefe que acabara de lhe demitir, as roupas de baixo molhadas pela chuva, o frio, a pena das pessoas nas ruas, o ressentimento de não poder fazer nada e o medo do futuro que lhe aguardava, aquela jovem presenciou o inaceitável.


Um rapaz negro e alto de moletom surrado e chinelo remendado se aproximou de uma senhora branca de meia idade e lhe deu boa tarde. No que ela pulou, feito um daqueles gatos no Youtube quando veem um pepino no chão e pensam que é uma cobra. Ele lhe deu boa tarde, e ela pulou, em seguida saiu correndo. A mulher saiu correndo e ele ficou para trás sem entender nada.


A jovem foi atrás dela, determinada, seguiu reto cortando entre as outras pessoas da calçada, seus capuzes e guarda chuvas, ensopada e irada. Parou atrás da mulher no sinal, cutucou-lhe o ombro e disse:

- A senhora não pode tratar as pessoas dessa maneira. É falta de educação.

A mulher lhe fitou, debochada apertou os olhos e respondeu:

- Eu não sou obrigada a ajudar todo mundo. E virou a cara.

- Não, mas a senhora tem que ter educação e responder quando alguém lhe cumprimenta. Você saiu correndo porque ele era negro! Isso é nojento!

- E quem você pensa que é para se meter na vida dos outros dessa maneira?


Era o que ela precisava. Que a mulher admitisse. Que ela tivesse a lividez de achar aquilo uma coisa boba e leviana. O seu sangue ferveu e começou a remoer pensamentos, “não está fácil pra ninguém, como é que algumas pessoas ainda têm coragem de ser preconceituosas dessa maneira? É preciso que o mundo esteja literalmente acabando para que as pessoas tratem as outras com o mínimo de decência, e percebam que precisam uns dos outros? Em que momento que as pessoas vão começar se olhar nos olhos? Será que a gente nunca vai evoluir? Tem horas que dá vontade de cuspir na humanidade! Eu quero cuspir na cada dela. Calma. Racional. Seja racional:

- Você devia ter vergonha de tratar as pessoas dessa maneira! Vergonha! Ele é um ser humano como outro qualquer!

O sinal abriu. A mulher tentou disparar na frente falando:

- Sai de perto de mim.

No que esbarrou numa moça negra e fez cara de nojo.

- RACISTA! ESSA MULHER É UMA RACISTA NOJENTA!


O mundo congelou, bem ali, em frente à Rua das Flores. Congelou por tempo suficiente para que ela pudesse contemplar a primeira vez em que usou o seu poder. Foi como um flash de luz justiceira em múltiplas as direções. Todas as pessoas que estavam atravessando a rua pareciam ter entendido aquilo e olharam para a mulher com cara de horror. A mulher se encolheu. Andou o mais rápido que pôde, depois correu. Foi o primeiro de muitos flashes, daquela que um dia viria a se chamar, A Justiceira das Ruas.





FIM.


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