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Crônicas Modernas: Heróis do dia a dia - 3 - OS IMUNES DE VERA CRUZ


Uma legião de heróis.





Era uma vez um vilão desconhecido, que ninguém nunca ouviu falar sobre. Ele movia-se pelas sombras, às costas de outros vilões, e passou despercebido durante muitos e muitos anos.


Mesmo depois de tanto tempo, ele não tinha aliados o suficiente, e isso o deixava com muita raiva, quando que os outros vilões, visíveis à luz, muitas vezes eram tratados até como heróis.


Os heróis dessa história já não existem mais, infiltraram-se entre os vilões para tentar salvar os inocentes, mas acabaram se corrompendo.

Lá nessa terra distante, cujos donos originais ainda estão sendo torturados e massacrados há mais de quinhentos anos, todo mundo se corrompe de uma maneira ou de outra, pois uma maldição paira no ar, ela é chamada de doença da Terra de Vera Cruz, seu nome científico é Desigualdade.


Os povos aprenderam a aceitar os vilões, pois a maldição nunca poupou ninguém. Por mais puro que fosse um coração, ele seria capaz de se corromper, e quando menos se esperasse, a pessoa estava furando uma fila, sonegando impostos, justificando o comportamento de um agressor, ou estacionando em uma vaga especial, sempre colocando a culpa dos seus atos na sociedade corrupta, isentando-se da responsabilidade. A desigualdade atingia à todos de uma maneira ou de outras, e a maioria das pessoas já havia sido infectada em algum nível pela doença.



O vilão queria aparecer, mesmo ainda sendo apenas uma sombra, ele sabia que podia ser maior e mais poderoso do que todos os outros vilões. E ansiava em ser tratado como um herói. A única maneira que ele encontrou de fazer isso, foi se aproveitando da maldição da terra e se transformando no herói dos vilões. Ele semeou a esperança de que o mal fosse vencer entre aqueles que tinham medo do bem um dia triunfar.

Ganhou um aliado aqui, outro acolá... Aos poucos os vilões deram espaço para que sua sombra ficasse cada vez mais escura, espessa e cegante. Eles aprenderam que embaixo da sombra não seriam vistos, e suas maldades seriam ainda mais fáceis de executar. Eles alimentaram a sombra, pois sabiam desde o princípio que a desigualdade se espalhava com falta de informação e cultura, conseguiram inclusive congelar os gastos para esses remédios por duas décadas para que ela se espalhasse mais ainda. Eles sabiam do que a maldição era capaz, e com a sombra, ela seria mais poderosa, a dominação era uma certeza para os vilões.


A terra era vasta, e demorou para que a notícia de um novo vilão chegasse a todos os ouvidos, mas pouco tempo depois disso, aqueles que já estavam infectados pela maldição do ar, foram totalmente dominados pelas sombra maligna que se espalhava, tornando a doença incurável.


Muito antes da sombra ter se alastrado pela nação, a maldição já era forte. Inodora e invisível, era impossível saber quando alguém estava sendo infectado, e só se percebia os primeiros sinais já com a doença em estágio avançado, ela poderia ficar encubada por anos e só se manifestar em um momento oportuno. Os infectados perdiam o discernimento e atacavam as outras pessoas em surtos de ódio irracional e sem fundamento.

Certos grupos de pessoas não desenvolviam a doença até o final, e eram consideradas imunes, por isso também eram as mais atacadas, inclusive eram ameaçadas e assassinadas, e acabavam se escondendo com medo.


A sombra se alimentava de duas coisas: medo e ódio. Entre o medo daqueles que não tinham coragem de se defender ou lutar contra a doença, e o ódio gerado por aqueles que já haviam sido infectados, o vilão se tornou praticamente invencível.

A doença se instalava no coração e se alastrava pelo sangue. Os doentes passavam a ter certeza que o mal ia vender e começaram a enxergar isso como uma coisa boa, achavam que o certo era matar e destruir tudo que fosse diferente do que o vilão acreditava. Eles pregavam a guerra, as armas, a tortura e o fim da liberdade. Os pensamentos se transformavam em palavras e as palavras em atos, quem não estivesse com eles (fosse ou não, imune), estava automaticamente contra eles e tornava-se alvo de destruição. A terra de Vera Cruz estava à beira de um novo massacre.


Faltava pouco para que a sombra nem precisasse mais da doença, de tão grande que se tornara. E foi então que aconteceu, os imunes começaram a reagir, liderados pelas mulheres cansadas de serem oprimidas, odiadas e obliviadas.

Eles eram poucos e esparsos, mas estavam se unindo, e estavam reagindo. Estavam revidando, e revidavam a ignorância com conhecimento, revidavam a intolerância com a coletividade. Suas armas, os livros, sua munição, os fatos, sua missão, não deixar o mal vencer. Os imunes carregavam a cura contra a maldade: o heroísmo, ele não morreu com os heróis corrompidos. O heroísmo sempre esteve vivo nos corações dos imunes, o desejo de não somente salvar a si mesmos, mas a todos os povos, e quem mais conseguissem. A atitude de não permitir a resignação perante um inimigo tão covarde, que precisou se aproveitar de uma doença para sair do lugar. Um inimigo que nada mais é do que uma sombra parasita sendo projetada pelo acúmulo de outros vilões com pessoas infectadas na ausência de conhecimento.


Os imunes ganharam aliados, aqueles que ainda não haviam desenvolvido totalmente a doença, e se vacinaram com um pouco de ponderação, ficando indecisos. Foi o suficiente para lhes fazer enxergar que realmente não havia mais heróis, e que aquela sombra iria devastar a Terra de Vera Cruz para todo o sempre. Os indecisos se uniram aos imunes, e juntos eles se tornaram uma legião de heróis.

Em vinte e nove de setembro, um clarão radiante começou a apagar essa sombra, esses heróis se vestiram de coragem, enfeites e cartazes, e foram às ruas. Juntos marcharam por toda a nação, por eles e pelos infectados, marcharam na esperança de que os remédios cheguem a todos. Eles mostraram seus rostos e ergueram suas vozes, subiram em palanques e trios elétricos, e disseram NÃO para aquela sombra, não para aquele vilão, não para aquela doença. Eles já haviam suportado de tudo, mas ELE NÃO!








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