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 PARA +16 ANOS  

Crônicas Modernas: Heróis do dia a dia - Pt. 1 - A Protetora da Praia.

A história de uma heroína desconhecida de Copacabana.




Ela estava sentada à beira-mar, embaixo de uma barraca branca, com a cabeça cheia, olhos marejados, e um livro grosso de capa azul repousava aberto em seu colo.

Um cigarro Marlboro queimava entre seus dedos. Era inverno, mas o sol estava alto, e apesar do vento frio e mar gelado, a praia estava lotada, como há de ser em qualquer dia de sol no Rio de Janeiro.


A moça comprou um mate. Um gole aqui, um trago ali, relaxada em sua independência praiana. Não se deixava distrair pelos acontecimentos ao seu redor; crianças correndo, e um grupo de barrigudos cervejeiros falando alto demais a poucos metros.

Ela sem mantinha focada em sua leitura, absorta, envolvida e emocionada. Em momentos ficava pasma e tampava a boca com a mão, depois se dava conta de que sua reação havia sido teatral demais e olhava para os lados para ver se alguém notara.


Havia barcos à vela no horizonte, um de cada, cor. O que seria aquilo? Indagou. Uma competição, uma exposição ou será que vieram “descobrir” o Brasil de novo?

Todos na praia pararam o que faziam para observar os barcos, tirar fotos, e ela fez o mesmo. Sacou o celular de sua bolsa e tirou algumas fotos depois o guardou novamente e voltou-se para o livro, afundando-se um pouco mais na areia para se encaixar melhor como estivesse sentada assistindo um filme, encantada.


E então aconteceu, no seu campo de visão, onde haviam pés caminhando, surgiu uma mão que pegou algo na areia, perto dela. A moça levantou os olhos assustada e fitou uma mulher mais velha, com seus cinquenta anos, corpo esguio e queimado pelo sol, vestindo apenas um biquíni e segurando uma bolsa simples de pano. A mulher pegou o objeto e o colocou em sua bolsa. A moça não viu o que tinha sido, mas parou de ler e encarou a mulher que andava em sua direção olhando para o chão onde ela estava sentada. Pensou por um instante que viria lhe abordar para oferecer um santinho. Em tempos de eleição é o que mais acontece, estranhos abordando outros estranhos para entregar santinhos com as fotos e números de terceiros estranhos. O Brasil vai bem, obrigada.


Então a mulher chegou muito perto, enfiou a mão na areia novamente, ainda com os olhos meio que olhando para a moça, e meio que olhando para o nada, pegou um copo de guaravita vazio, sacudiu a areia para fora dele e também o enfiou na bolsa, passando indiferente pela moça, como se ela não estivesse lhe observando descaradamente.

Alguns metros adiante a mulher pegou um canudo, e mais a frente uma garrafa de plástico, sacodiu tudo e continuou seu trajeto repetitivo enquanto o pescocinho da moça virava, lhe filmando, atônita. Com certeza aquilo era mais incomum do que qualquer coisa que ela teria lido naquele livro, e continuou olhando para a mulher, acompanhando seus movimentos, curiosa, com o olhar de quem a vida ainda é capaz de lhe surpreender.


A mulher continuou até que quase a perder de vista, então retirou uma canga de sua bolsa esticou- a no chão e deitou ali. Já estava difícil vê-la de pé; deitada, sumiu. Passou.

A moça ficou se perguntando quem seria aquela mulher. A mulher que acorda domingo de manhã, e resolve que se deseja uma praia mais limpa, terá que limpá-la com as próprias mãos.


Uma justiceira, uma vigilante do meio ambiente, uma heroína sem capa, que veste apenas um biquíni, cujas peças não combinam entre si, e sua bolsa alada. Solitária e silenciosa, como há de ser uma heroína cuja identidade é misteriosa.


- Seria ela uma militante esquerdista extrema que passa seus dias escrevendo comentários negativos em sites sensacionalistas, divulgando as notícias de verdade, contraindo a todos e organizando protestos em frente à Alerj?

- Seria ela uma mulher executiva durante a semana, daquelas que vive, respira, come, bebe e caga trabalho, mas que um dia havia sido uma adolescente sonhadora cuja praia fora seu refúgio em momentos de dúvida ou de coração partido, e agora entristecia-se ao chegar em seu ponto de fuga e deparar-se com pedaços de lixo na mesma areia em que ela deitou sua vida inteira?

- Seria ela uma enfermeira que passa tempo demais no hospital cuidando de pessoas doentes, sentindo a dor do outro, e o mesmo acontece quando ela chega na praia e vê-la gritando de dor, intoxicada de lixo, e portando a mulher lhe ajuda como pode, arrancando os pedaços que consegue como quem arranca cacos de vidro da testa de uma vítima de um assalto?


A moça continuou a olhar para o horizonte como se a mulher fosse surgir novamente trazendo mais perguntas ou quem sabe algumas respostas.

Não surgiu, e aquilo ficou marcado em sua memória, em seu olhar. Aquela moça jamais seria a mesma.


Num futuro, não muito distante dali, a mulher ficará velha demais ir catar o lixo ou se expor ao sol, então a moça, que já não será tão moça, tomará seu lugar.

Ornada em honra, vestirá um biquíni, e junto com sua bolsa, sairá num domingo de manhã para salvar o mundo, a nova Protetora da Praia.



FIM.


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