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  RECOMENDADO 

 PARA +16 ANOS  

FREIRA NOSSA DE CADA DIA

ANEDOTAS PT.8




Minha referência em matéria de freiras é, e sempre foi, um coral liderado pela Whoopi Goldberg, em que um bando de freiras animadas que fazem caridade no bairro, cantam música pop e batem palmas com energia de quem tá arrasando no twerk....




***


***


Lá estava eu, a primeira da fila, aguardando para ser atendida, quando a Freira chegou. Ela tinha um aspecto jovial, as poucas rugas davam-lhe a aparência de ter quarenta e poucos anos no máximo, usava um hábito acinzentado de panos leves e estava acompanhando um jovem seminarista. Sorriu para mim quando chegou.

Até agora não sei porquê, mas cedi meu lugar para que ela fosse atendida primeiro, imagina, uma freira, passa na frente, lógico. Depois fiquei questionando, de onde eu tirei isso?


Vale dizer que meu contato com a religião católica, em geral, foi bem pequeno; algumas aulas de “religião” na escola resumiam-se a decorar fatos da bíblia e fazer rezas pré-ensaiadas. Minha mãe, horrorizada com ausência de laicidade na sala de aula, prontamente escreveu um bilhete isentando-me de tais aulas sob divergência de crenças. Pois bem, crise advertida.

Depois, na formatura da quarta série rolou uma missa eu não entendi uma palavra do que o padre disse. E aí, com uns doze ou treze anos uma coleguinha convidou-me para ir a um encontro de jovens em sua igreja, fui algumas vezes para acompanha-la e depois concluí que não tinha a ver comigo.



Recebemos as mesmas informações e sentamos para aguardar. A sala estava vazia, a princípio só havia nós três. Duas horas depois, sala cheia e os olhares vazios de espera, nada de atendimento, ai um homem entrou e disse que o sistema estava lento e por isso a demora, mas que todos seriam atendidos.


Troquei olhares com a freira e identifiquei o mesmo sorriso de alivio e conformidade, “ao menos não viemos à toa”, disse ela. Fui obrigada a concordar, “pois é, eu estou sem pressa, vim do Rio de Janeiro para fazer isso, não volto sem”. Ela abriu os olhos de curiosidade e indagou me sobre a viagem, desatei a falar do frio do ônibus....


O seminarista não falava muito, mas descobri que ele estava lá para pegar seu visto para morar no Brasil, enquanto eu estava indo fazer o meu para ir embora. Um troca-troca de países, pensei. Mas guardei a piadinha suja pra mim.

A freira era a pessoa que acompanhava os clérigos estrangeiros e os ajudava a realizar os trâmites. Ela segurava os documentos do rapaz e era a pessoa “responsável” na situação. Ela carregava até um celular para se comunicar com o monastério.


Começamos a falar sobre os dois países, e comparar as comidas, os temperos. Demos risadas com os nomes parecidos que eram de coisas totalmente diferentes. Falamos sobre a infraestrutura das cidades e os governos dos países. Eu contei que queria fazer uma horta em casa, ela contou que sobre um prato especial que uma irmã estrangeira cozinhava.

Falamos sobre os idiomas e como a gente acaba misturando tudo e tendo seu próprio dialeto.

O seminarista fazia um comentário o outro, muito simpático, mas quem brilhava era ela. Contando anedotas e me fazendo perguntas. Seu sorriso era encantador.


Do jeito que sou, comecei a reclamar sobre a minha cidade, falar mal do prefeito, do governador, contar sobre os milhares de desabrigados e desempregados e esfomeados andando pelas ruas e implorando e roubando. Revoltada, soltei que eu achava, sim, que todas as políticas deveriam ser em prol dos mais pobres, daqueles que não tem o suficiente para sobreviver. E quem estivesse bem e com dinheiro que se virasse sem assistência do governo. Quase um discurso comunista, e ela balançava a cabeça concordando. Dava para enxergar a revolucionária contida dentro dela dando graças a deus por saber que o mundo não estava tão perdido assim entre os pagãos.



Em um dado momento ela lamentou, apontando para o seminarista, “pois é, eles podem estudar, né, a gente não”. Fazendo um olhar de ironia que tornou o ar palpável.

Meu deus, pensei, uma freira feminista. Será que eu estou sonhando? Não.

Ela repetiu isso, de novo, em outro momento, mas de uma forma tão educada que quase parecia um elogio, mas era uma crítica, uma crítica à instituição.

Eu vibrei por dentro! Que mulher, que mente. Quase que ela falou: “pois é, Jesus nunca disse que mulher não podia estudar”. Quase.



Depois o estrangeiro cometeu a gafe de exaltar que o pais dele agora seria maravilho pois acabara de eleger um presidente da direita, assim como o nosso. Encaramos ele, eu e ela, com a perplexidade de quem tenta entender um contorcionista chinês. Assentimos com a cabeça. E eu quase falei: mas nem estudando você entendeu, né! Quase.



Conversamos sobre tecnologia e internet, comunicação e como as coisas evoluem. Ela perguntou o que eu fazia, eu disse que era escritora. Ela ficou encantada. Expliquei que por isso eu me interessava por tudo inclusive pela bíblia, e que escrevo uma história baseada no capítulo de Gênesis.


Continuamos a papear sobre livros e bíblia e a demora no atendimento pois já passava do meio dia.

O seminarista falou que queria rezar, ela me perguntou se eu conhecia a reza, eu não conhecia, mas ouvi a reza e repeti as partes que eu sabia.


Havia uma TV na sala de espera. De tempos em tempos nos distraíamos com as notícias. Afinal, foram longas horas de espera. Diana Ross fez 75 anos e passou uma reportagem sobre sua carreira. Eu conhecia alguma músicas, e a freira também, cantarolamos...


É, pelo visto nunca houve nada de errado com a minha referência em freiras.


Amém.



E para quem entendeu (ou não) a referência, fotos da crônica são do filme Mudança de Hábito, deixo aqui um pouco desse clássico:






ESCOLHA A SUA!

PT.1 - A FILHA PROMÍSCUA

Uma anedota sobre o golpe do trote telefônico.

https://www.nudezmental.com.br/blog/cronicas-modernas-anedotas-pt-1

PT.2 - O FISCAL DO SUTIÃ.

Quanto simbolismo pode existir em uma única peça de vestuário?

https://www.nudezmental.com.br/blog/cronicas-modernas-anedotas-pt-2

PT.3 - A MULHER PENEIRA

Uma anedota sobre piercings e estigmas!

https://www.nudezmental.com.br/blog/cronicas-modernas-anedotas-pt-3

PT.4 - O SILÊNCIO ENTRE MULHERES

Sobre as pequenas guerras silenciosas do feminismo.

https://www.nudezmental.com.br/blog/cronicas-modernas-anedotas-pt-4

PT.5 - A MINHA FILHA

Pensamentos provenientes da aparição de um arco-íris.

https://www.nudezmental.com.br/blog/cronicas-modernas-anedotas-pt-5

PT.6 - OS NOVOS POBRES

Os novos ricos sempre vão existir, enquanto isso um novo grupo surgiu.

https://www.nudezmental.com.br/blog/cronicas-modernas-anedotas-pt-6

PT.7 - BIFURCAÇÃO BRASILEIRA

A direita e a esquerda, a 120 km por hora. Que você acha que destrói o Brasil mais rápido?

https://www.nudezmental.com.br/blog/cronicas-modernas-anedotas-pt-7

PT.6 - APÊNDICE 1

Se ficar pobre, não se mate.

https://www.nudezmental.com.br/blog/cronicas-modernas-anedotas-pt-6-apendice-1




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