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  RECOMENDADO 

 PARA +16 ANOS  

O ANO EM QUE NÃO TEVE CARNAVAL

UM CONTO SPIN-OFF DO LIVRO MADE IN TERRA


Embarque no universo de MADE IN TERRA e acompanhe um pouco das transformações que aconteceram no Brasil com a chegada da FGT. Seja você já fã da história ou alguém que ainda vai conhecer essa aventura, aproveite para saber um pouco mais sobre o ambiente de MADE IN TERRA nesse conto especial!


Jaqueline não pegou o elevador, subiu correndo as escadas e bateu na porta do apartamento. Eu abri e a deixei entrar. Estávamos a sós pela primeira vez em semanas, mas não falamos sobre isso. Ela havia corrido para não ser pega pelos guardas franceses então peguei um copo d’água e olhamos para a TV enquanto ela o bebia. Por sorte conseguimos religar os antigos sistemas de vigilância do prédio na televisão da minha avó, um truque costumeiro dos moradores de Copacabana, a maioria dos cabos de antena central davam acesso aos circuitos de câmeras. Era a melhor maneira de evitar um escaneamento, visto que conseguimos desativar os nossos chips subcutâneos com alguns comandos eletrônicos. Andávamos sem medo de sermos rastreados ou ter nossos cérebros controlados por calmantes, sabe-se lá o que eles colocavam naquelas coisas, no entanto, corríamos o risco de sermos pegos a qualquer momento e passar por um novo processo de implantação. Não era algo violento, mas certamente era incômodo saber que havia uma máquina no espaço monitorando cada passo nosso, por esta razão eu e Jaqueline nos unimos à resistência.


Meus pais eram policiais militares, não tiveram escolha e foram transferidos para uma base na África, assim como todos os outros militares que estavam espalhados pelo mundo trabalhando na redistribuição. Os militares franceses vieram para cá, mas também recebemos muitos militares coreanos.

O Brasil foi um dos maiores focos de acolhimento, havendo hectares e mais hectares de terras que poderiam estar produzindo comida e moradia, foi exatamente isso que aconteceu. Aos poucos as terras desocupadas do norte de Minas Gerais até o sul do Pará passaram a ser enormes assentamentos de chineses que eram organizados pelos franceses e coreanos, e o Brasil jamais seria o mesmo.


Na nossa vidinha na zona sul do Rio de janeiro, as maiores diferenças eram o fato de não termos mais o direto de escolher o que comprar, nem o que comer, o que usar e nem o direito de opinar no novo governo. O mundo agora era controlado por algo chamado Federação Globalista da Terra, a F.G.T. Havia uma mulher lá nos Estados Unidos que aparentemente encontrou alienígenas habitando entre nós, e de alguma maneira ela conseguiu se livrar de todos os presidentes e governantes do mundo e instaurou um tipo governo contingente onde nenhuma lei existe mais, mas também não existem armas. E pelo que entendi, todas as crianças de orfanatos foram adotadas e a comida que recebemos era distribuída por todo o mundo, ninguém mais passava fome e todos tinham moradia.


Parece perfeito, mas não é bem isso. Pode não ter rolado muita violência por aqui, mas nos outros países a coisa ficou bem obscura com essa estratégia de troca de tropas e cessar fogo. Nós assistimos à tomada do oriente médio... Foi no mínimo chocante, mas foi suficiente para que todos entregassem suas armas voluntariamente no Brasil.

O preço que pagamos para esperar que a Federação realize todas as propostas que ela insiste em aumentar a cada dia, é nossa liberdade, a nossa voz, e o nosso direito de ir e vir. Quietinhos e calados enquanto um monte de magnatas controla o planeta, mas desta vez em larga escala.


Tivemos que ficar em casa por semanas, e os preparativos para o Carnaval foram feitos na coxia pelos membros da resistência. Construir alegorias não estava dentro dos planos do novo governo, ainda assim, subornamos guardas, fizemos ensaios escondidos nas favelas e nos esforçamos ao máximo para nos lembrar que não importava o que estava acontecendo, aqui ainda é o Brasil e nós ainda temos o direito de sermos felizes.


Finalmente o grande dia chegou, sexta-feira de Carnaval. O que eles podiam fazer? Não haviam armas nem bombas, nem nada, eles não tinham como nos impedir de festejar. Jaqueline deixou o copo em cima da antiga televisão e foi se arrumar, nos fantasiamos. A divulgação foi no boca-a-boca, e levamos instrumentos improvisados, tamborins, cuícas, chocalhos e pandeiros. Aquele era o nosso movimento o nosso discurso, a nossa tomada de poder, por menor que fosse. Em cada bairro rolaria uma manifestação, e assim nos espalhamos de esquina em esquina por várias cidades do Brasil. Não tínhamos internet para saber quantas pessoas haviam se juntado à ideia, mas não precisávamos, a energia estava em todo lugar.


De fato, o Carnaval havia sido cancelado, mas manifestações de alegria não. Nos jornais e revistas que veiculavam, agora que a gente não tinha internet, haviam manchetes do tipo: O ANO QUE NÃO HAVERÁ CARNAVAL.


Não haveriam desfiles na Sapucaí, nem blocos, nem trio da Ivete, nem um frevo em Olinda, nem latão de Skol, nem viagem para relaxar, nem retiro de uma semana, mas não por isso deixaríamos de fazer um pouquinho de baderna.


Chegamos numa esquina da orla e um pequeno grupo de corajosos estava ali. Em seguida avistamos outro e mais à frente um outro grupinho. Caminhávamos cantando marchinhas e fazendo batuques. Aquilo perdurou algumas quadras até que demos de cara com um grupo de soldados coreanos que pareceu confuso ao nos ver. Ficamos imóveis, mas continuamos cantando e batucando, esperamos eles virem ao nosso encontro. Um deles começou a dançar no caminho. Os outros começaram a rir e nós continuamos a caminhar pelas ruas cantando nossas marchinhas e chamando outros moradores para viver um pouco da nossa felicidade.


Deu certo, e aos poucos nos tornamos uma pequena multidão que cantava e dançava em direção ao centro da cidade nas ruas semivazias. Agora que não havia mais gasolina, era muito raro ver um carro. Eu me sentia desfilando sobre os escombros de um mundo de tristeza que destruiu tantos sonhos, mas que agora me dava a chance de ressignificar a minha vida. Todos nós tínhamos essa chance agora. E por um momento muito breve eu questionei, porquê estávamos com tanto medo? Ah sim, chips subcutâneos, controladores no espaço, robôs estranhos por todo lado, soldados que não falam nosso idioma e um constante sentimento de que o mundo está prestes a acabar a qualquer momento com uma invasão alienígena!


Os franceses também se juntaram a nós e pouco a pouco nosso coro se tornou mais alto e nossa alegria mais transcendente. Sim, 2020 foi o ano em que não teve Carnaval, mas teve algo muito maior do que isso.







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