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 PARA +16 ANOS  

O QUE É LUGAR DE FALA – Djamila Ribeiro



DESNUDANDO O LIVRO


Todo mundo já sofreu algum tipo de preconceito, já se sentiu diminuído por conta de alguma característica física ou de sua personalidade, mas racismo é outra coisa. Eu não estou qualificada para falar de racismo, mas posso falar de todas as coisas que passaram pela minha cabeça enquanto eu lia sobre ele em: O que é Lugar de Fala.


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Eu lembro da minha priminha branca com uns três anos de idade em uma loja de brinquedos com sua mãe. Apontou para uma boneca negra e disse: “Mamãe, quero essa”. Minha tia olhou para a prateleira e notou que havia mais uma ou duas bonecas negras no meio de dezenas de bonecas brancas da mesma marca, e disse: “Minha filha, no dia que houver bonecas negras suficiente para todas as meninas negras assim como existem tantas bonecas brancas, você poderá escolher a que lhe convém, porém não vamos deixar que uma menina negra seja obrigada a comprar uma boneca branca por falta de opção, temos que pensar no outro.”

Temos que pensar no outro, a frase ecoou.

Minha tia perguntou para a gerente porque havia tão poucas bonecas negras e a gerente disse que a loja simplesmente fazia a solicitação da marca da boneca, não sua cor, era a fábrica que mandava menos negras e não havia como pedir que mais fossem enviadas pois elas vinham todas com a mesma marca. Era como se houvesse algo com a máquina que fazia bonecas e não houvesse nada que a gerente pudesse fazer.


Agora me diz, como é que uma marca distribuidora no Brasil nunca parou para pensar na estatística de que existem mais pessoas negras do que brancas no país e que por consequência existem mais crianças negras do que brancas? Ambas as bonecas custam o mesmo preço de produção, e são vendidas pelo mesmo valor, e existem muitas crianças negras (e brancas querendo) a boneca negra. Por que isso ainda acontece? Será que é porque elas eram fabricadas na china? Não. A resposta é Racismo, puro e simples. Ninguém pensa no outro. E o pior, é como se o mundo ainda fizesse uma forcinha extra para fingir que nada disso está acontecendo.


FONTE: http://cadenossaboneca.com/mapa/

Hoje, quase duas décadas depois, nada mudou, pelo contrário, a evolução da mídia só deixa mais e mais evidente o quão grande é o apagamento social da raça negra, é nítido que há pouca ou nenhuma evolução na valorização de sua identidade, não se fala de e não se enxerga a sua presença e a necessidade de se discutir sua ocultação difusa na nossa sociedade, não se legitima seus discursos e valores, seus conhecimentos. Além das terríveis estigmas impostas.

É uma estrutura de opressão que vem perdurando a séculos, com manobras cada vez mais intrínsecas, e que infelizmente vêm de base, a infância. Aquela prateleira de bonecas ensina para crianças (e adultos) que as bonecas negras são menos “necessárias” e demandam menos “espaço” do as brancas, o que você acha que isso representa?

A experiência é diferente entre homens e mulheres. Eu tenho um amigo negro de trinta anos, criado em uma comunidade no Rio de Janeiro que afirma nunca ter sofrido racismo em sua vida e outros amigos (homens), na mesma condição social, que concordam com ele.


Porém todas, literalmente todas as mulheres negras que conheço afirmam já ter sofrido discriminação racial em vários níveis; desde serem “confundidas” com a moça da limpeza, passando por simplesmente não serem atendidas por vendedoras em lojas, até o ultrage de terem suas bolsas revistadas ao sair de estabelecimentos. O racismo hoje é muito mais latente na camada feminina do que entre homens.

A mulher negra, a menina negra. O outro que ninguém costuma pensar, observar. A mulher que nunca foi tratada com delicada pois era negra e escrava, a mulher que estava trabalhando na lavoura. A mulher que o feminismo não considerou. A mulher que sua menina não tem boneca igual a ela.


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É esta mulher que o livro O que é Lugar de Fala da filósofa Djamila Ribeiro vem nos apresentar. Uma mulher que está fora dos olhares dos movimentos, quando que o discurso racista visa emancipar o homem negro e o discurso feminista a mulher branca.

Djamila fala de tudo isso e muito mais em sua obra de abertura da coleção Feminismos Plurais que tem como objetivo apresentar novas interpretações de temas sociais pouco discutidos, de um ponto de vista ainda menos representado, o da mulher negra.

Onde fica a mulher negra, onde está sua voz, porque ela é silenciada e como podemos começar a reverter esse processo cruel de desumanização que começou com a escravidão e se arrasta até as prateleiras das lojas de brinquedos e à perder e vista?

Quais as faces do movimento feminista? Será que sabemos interpretar as pautas militantes e comprender que elas não alcançam a todas às classes oprimidas? Será que ao invés de falar de homens e mulheres não deveríamos estar falando de pessoas?

Cheio de referências e citações de grandes nomes do feminismo, O que é Lugar de Fala aborda pontos que se estendem facilmente para outras temáticas fortes da nossa sociedade. Um livro que deve ser lido e debatido entre todos para gerar uma reflexão mais ampla do nosso tempo. Leitura obrigatória para todo ser que se considera humano.



VOLUME LIDO: O QUE É LUGAR DE FALA

AUTORIA: DJAMILA RIBEIRO

EDITORA: PARCERIA ENTRE AS EDITORAS LETRAMENTO E JUSTIFICANDO.

1ª EDIÇÃO 2017



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http://cadenossaboneca.com/mapa/


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