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TRIOLOGIA: O LAR DA SRTA. PEREGRINE PARA CRIANÇAS PECULIARES

Atualizado: 7 de Fev de 2019

PARA FECHAR O ANO COM CHAVE DE OURO, E DEIXAR AS FÉRIAS DOS LEITORES BEM ANIMADAS, CRÔNICAS MODERNAS APRESENTA "O UNIVERSO PECULIAR"!





No meu tempo de escola, havia um exercício na aula de literatura onde utilizávamos os elementos de uma fotografia para recriar, com nossas palavras, as circunstâncias registradas na imagem ali e dar vida nova às pessoas eternamente congeladas nela.

Ranson Riggs, o autor da série O LAR DA SENHORA PEREGRINE PARA CRIANÇAS PECULIARES, transformou essa técnica simplória de criatividade em uma complexa trilogia de ficção que surgiu através da narração de 44 imagens estranhamente encantadoras pertencentes a colecionadores.


Algumas das imagens remetem à virada do século XX, e se destacam pelas técnicas de manipulação de fotografias da época.

A fotografia ainda era considerada um hobby luxuoso naquele tempo, mais utilizada para documentar momentos formais, situações únicas e ainda como registro oficial, não sendo muito comum encontrar fotos antigas com pessoas em poses espontâneas e manipulações cômicas, tornando este acervo único e fascinante por si só.

As imagens transcorrem décadas, países e culturas diferentes, mostram viagens, guerras, circos, paisagens e muitos tipos de pessoas...



O conceito é genial e o material extraordinário, porém a execução deixa um pouquinho a desejar. Apesar de conseguir envolver e até fascinar o leitor durante mais de mil páginas, o conteúdo é levemente raso. Infelizmente essa é uma característica muito recorrente da literatura infanto-juvenil; desprezar a capacidade do leitor de se interessar por narrativas que não recorram aos velhos clichês que fabricam sucessos, além do famoso medo de mergulhar nas qualidades negativas dos personagens de destaque, praticamente canonizando eles.


O autor Ranson Riggs abusou desses clichês quando utilizou um protagonista homem adolescente que tem crises existenciais e ainda por cima incluiu um local de “ensino” para jovens segregados por causa de poderes sobrenaturais que pessoas normais não compreendem, enquanto "lá fora" está rolando uma disputa para deter o poder daquele mundo fictício... (Alô, quem fala? Percy, Harry ou algum aluno do professor Xavier?)


Como se isso não bastasse, Ranson Riggs ainda enaltece, destaca e até nomeia a série em homenagem a uma personagem mais velha somente pela sua posição de liderança, quando na realidade, a Srta. Peregrine é de longe a personagem menos cativante da história... Seria como se a saga Harry Potter tivesse se chamado, “A escola de magia do professor Dumbledore”. Meio ofensivo, né?

Pois bem. Ironias à parte, infelizmente é inevitável a comparação em diversos momentos com essas e outras sagas já ruminadas pelo público, mas é possível seguir a leitura sem distrações constantes pois o autor tem uma narrativa extremamente convidativa e passional que acaba te cativando de outras maneiras.



Diferente dos protagonistas habituais, Jacob Portman, filho único e superprotegido do casal Portman, cuja única referência de espontaneidade é o avô paterno senil, narra a história em primeira pessoa, nos deixando tranquilos desde o começo deixando claro que haverá algum tipo de “final feliz” ao se lamentar constantemente sobre sua vida antes dos acontecimentos da saga no Universo Peculiar.


Um mundo paralelo e anacrônico onde vivem pessoas providas de dons especiais que se manifestam em algum momento da vida. Esse mundo paralelo é dividido em diversas fendas temporais ao redor do globo onde um dia específico é replicado eternamente, congelando o passar do tempo e fazendo com que as pessoas não envelheçam.


Durante a narração, Jacob Portman se lamenta, conta, reconta, pondera, duvida, analisa, critica, decide, claudica, avança, recua, pondera de novo, afirma e nega mais uma vez, literalmente todos os pensamentos que passam por sua cabeça adolescente fazendo o leitor navegar em um conturbado mar de confusões que somente um garoto na puberdade pode criar em sua mente.

O que destaca Jacob Portman dos demais heróis é que ele não é um herói e nem tenta ser. Ele passa o tempo todo pensando em voltar para casa e deitar em sua cama mesmo que o mundo esteja acabando. Ele é um adolescente com dramas e vontades próprias de adolescente, e não de herói, que no caso teria sido seu avô.

Jacob demora bastante tempo para entender quanta responsabilidade recai sobre si no momento em que ele muda de realidade e passa a interagir no Universo Peculiar. Descobrindo poderes que antes eram considerados fantasias da sua infância alimentadas pelo avô dito senil, agora são fatos concretos que ele precisa encarar e decidir se quer assumi-los.


Quem lê o livro, no mínimo o termina pela curiosidade de saber como é que ele vai aguentar todos os perigos e aventuras até o final sem ter uma crise de choro, perder a cabeça ou sair dali correndo.

Algo que não pode ser deixado de ressaltar e que me deixou bastante interessada foi o dilema ético-temporal de Jacob ao se permitir envolver-se com uma mulher que tem mais de cem anos de idade, está eternamente presa no corpo nas atitudes de uma adolescente e que, além disso, namorou o avô do rapaz no passado! É, no mínimo, confuso.

A partir daí, entre fotos antigas e pensamentos ambíguos, lentamente, um mundo bicolor de criaturas e pessoas fantásticas vai tomando forma diante de nossos olhos.


Se ambientando no meio de uma batalha que utiliza a segunda guerra mundial como base histórica, o primeiro livro desenrola-se de maneira bastante introdutória e um pouco arrastada, mas consegue ser bastante agradável e guarda um final engenhoso que abre espaço para uma continuação que deixa bem menos a desejar do que a apresentação em si.




Algo que fiquei sem entender foi o porquê da editora Leya não continuar a publicação, atendo-se a divulgar apenas o primeiro volume que carrega o nome da saga. Os três volumes acabaram sendo traduzidos e lançados no Brasil pela editora Intrínseca numa linda edição em capa dura que faz jus a esse clássico emergente.

Além de um admirável trabalho de edição, a Intrínseca ainda fez o favor de retraduzir o título da saga ao pé da letra, trocando o termo orfanato por lar em respeito ao real sentido da referência. Aqui acrescento que também poderiam ter refletido mais sobre a tradução do título do segundo livro, pois o mesmo é um trocadilho em inglês que o título “Cidade dos Etéreos” não abrange bem.


O Universo Peculiar ganha mais densidade a cada capítulo da saga principal, e ainda pode ser um pouco mais explorado em um livro extra chamado Contos Peculiares, obra fictícia mencionada dentro da história.


O orfanato da srta. Peregrine para crianças peculiares também foi transformado em uma produção hollywoodiana de Tim Burton, alcançando sucesso mediano, mas não todas as expectativas, principalmente por não ser fiel à alguns detalhes importantes do livro.


Em entrevista, Ranson Riggs declarou que o segundo e o terceiro livro da série não tiveram o mesmo processo criativo do primeiro. Sendo as histórias produzidas antes da inclusão das fotografias e que o desafio nesses volumes foi encontrar fotos que se encaixassem no enredo e depois editar os detalhes de acordo com as imagens sem comprometer o conteúdo raiz.

Nota-se uma sutil mudança na velocidade da narração e na assertividade dos acontecimentos. Como se antes a memória de Jacob estivesse um pouco nebulosa e dependesse das fotos, mas agora ele estivesse no trilho correto e pensando com total clareza, transformando as fotos em guarnições de um prato muito mais requintado, agitando o ritmo pelo qual somos conduzidos no segundo volume, A cidade dos etéreos.



Um ponto que deve ser observado com atenção, é que todos os acontecimentos da trilogia ocorrem num período não maior do que duas semanas, o que faz com que não haja tempo suficiente para os personagens terem muitos momentos de interação prolongada ou revelações que tenham chances de serem digeridas. Aliás, a urgência no desenrolar dos acontecimentos faz com que as descobertas venham uma atrás da outra sem pausa para fôlego, acrescentando novos personagens e cenários numa velocidade quase difícil de acompanhar.

Tive que voltar as páginas algumas vezes para memorizar características de Peculiares pois em alguns momentos os diálogos incluem mais de cinco pessoas. E são nesses diálogos que as personalidades dos Peculiares tomam forma pois não há muito tempo para apresentações do segundo livro em diante.


Neste volume é aprofundada a origem da Srta. Peregrine e suas companheiras, oriundas de uma sociedade matriarcal incumbida de manter a ordem e o controle das fendas temporais.


Apesar do título brasileiro não combinar totalmente com segundo livro, ele é o melhor da saga e contém uma reviravolta que faz até os corações mais fortes perderem o compasso. É um livro forte e cheio de analogias interessantes.

Em algum momento da história, Emma, o par romântico de Jacob deixa de ser uma personagem coadjuvante como as demais crianças peculiares e passa a ser dominante nos acontecimentos. Hora do protagonismo feminino entrar em campo!


Mesmo que ele continue narrando, Jacob depende de Emma constantemente para tomar as decisões, pois ele mesmo não faz a menor ideia de como funciona o Universo Peculiar.

Além dela ser uma centenária, Emma é uma personagem forte e verdadeira que merecia um livro só dela!


O elenco de apoio em si é difícil de criticar. As crianças (ou idosos) peculiares são todos extremamente cativantes. Principalmente nos momentos em que eles estão arrasados, exaustos, sagrando, desmotivados, desiludidos e sem perspectivas. Esses personagens detêm grande força e sabedoria, cada qual uma maneira diferente de encarar os percalços e as pequenas alegrias, expressando opiniões cruas e usando todas as suas forças físicas e psicológicas à exaustão, sendo sempre resilientes.



O terceiro livro, Biblioteca de almas, mantém o ritmo acelerado do segundo, introduzindo e retirando personagens à torto e à direita, novas fendas do tempo e finalmente a definição do conceito metafísico do mundo peculiar que não ficou bem claro nos dois primeiros livros.


No final, Jacob e Emma dividem o protagonismo, as responsabilidades e os sentimentos indefinidos um pelo outro. Eles carregam a missão de salvar o Universo Peculiar, enquanto os vilões tentam monopolizar o poder e destruir a subcultura da qual derivam.


Com um cenário grandioso e uma batalha final ÉPICA e ELETRIZANTE, Ranson Riggs conseguiu se consagrar como escritor mesmo tendo recorrido desde o início aos famigerados clichês de fantasia.

A batalha em si poderia ter se desenrolado de maneira bem diferente se Jacob tivesse uma personalidade mais amadurecida, porém ele não teve tempo suficiente para isso, e acabou ficando um pouco esmaecido nesse momento da história.

O prometido final feliz chega em boa hora num último capítulo bem calmo, lúdico e açucarado para contrastar com o restante da história. O autor tentou ser imprevisível, mas não teve a ousadia deixar espaço para a imaginação do leitor, amarrando até os mínimos detalhes.

A última frase do livro é marcante e filosófica, traduz muito bem o sentimento dos protagonistas e me remeteu ao final do clássico Casablanca. Devo dizer que essa história veio mesmo para ficar.


CALMA, QUE A AINDA TEM MAIS!


Acaba de ser lançado um inesperado quarto volume para a série, que já estou ansiosa para ler, e volto em Fevereiro de 2019 para contar o que achei!




VOLUMES LIDOS: O ORFANATO DA SRTA. PEREGRINE PARA CRIANÇAS PECULIARES – 1ª EDIÇAO 2012 – LEYA

O LAR DA SRTA. PEREGRINE PARA CRIANÇAS PECULIARES II E III

CIDADE DOS ETÉREOS – BIBLIOTECA DAS ALMAS – 1ª EDIÇÃO – 2016 – INTRÍNSECA




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